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quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Devaneios de uma mente gorda

Olho a mesa ao lado de canto de olho, inconformada, sempre fico pensando que tipo de pessoa larga um queijo brie quentinho com um molho de trufas pra trás? Sério! Isso aconteceu na semana passada e eu continuo indignada só de lembrar. A dupla que estava sentada ao nosso lado no restaurante largou pra trás tranquilamente metade dessa entrada, que vinha servida com pedaços de pão quentinho.

Por mais que eu tente comer menos, por mais que eu saia de casa determinada a só comer o prato principal, tem certas coisas que eu não tenho maturidade, e queijo brie é uma delas... E eu fatalmente pergunto pro Renato como quem não quer nada "você vai querer entrada?" torcendo pra que ele queira rsrsrs. E ele quis, e brigamos pelo último pedaço de pão que ainda estava quentinho, porque sou dessas que come rápido pra não esfriar.

Pra além do queijo, quase sempre eu tenho essa reação quando largam porções pra inacabadas. Não me identifico com esse tipo de gente que pede uma porção de bolinho de arroz e deixa um ou dois pra trás esfriando pra todo o sempre. Mano! Devia ser proibido isso. Aquele bolinho quentinho e crocante, feito pra comer na hora tomando alguma coisinha e o ser humano pede e não come tudo? Não posso com isso!

Eu gosto de gente que come, e gosto de carboidrato, e gosto dele principalmente a noite [sim, isso explica algumas circunferências kkkkk]. Gosto de gente que valoriza a comida, e que em respeito a comida se delicia de verdade comendo o queijo brie quentinho e raspando o molho de trufas no último pedacinho brigado de pão.

Não gosto de esperar uma conversa terminar pra começar a comer um prato que acabou de chegar a mesa, quentinho. E detesto ver gente tomando sorvete devagar, enquanto ele derrete inteiro, ah, que falta de poesia....

Foi apenas um desabafo de uma mente eternamente gorda, que felizmente está dentro de um corpo que gosta de exercícios e tem disciplina, e que só por esse motivo não é obesa como os pensamentos. =)

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Minha história com a Rita Lobo

Eu sempre acho que as coisas que passam pela minha cabeça são irrelevantes para as pessoas. Tenho um insight e penso 'quem iria se importar com essa história?'. Pra que escrever sobre isso? Quem vai querer ler? Fico pensando que nem tenho tanta profundidade pra falar de certos temas. Fico remoendo um início de texto enquanto escovo os dentes, ou enquanto dirijo, ou picando ingredientes pra uma receita. Por algum motivo eu deixo passar (na maioria das vezes) e ai esse blog fica assim paradinho, quando na verdade minha cabeça tá com um milhão de temas...

Só que hoje eu assisti a um episódio da Cozinha Prática com a Rita Lobo em que ela divide memórias da família. O personagem de hoje foi seu avô e ela mencionou coisas que poderiam ter sido ditas por mim dada a semelhança do que ela descreveu. E não por nada específico, não por sermos as duas descendentes de italianos, ou porque eu gosto de cozinhar, mas talvez porque ela tivesse pelo avô dela o mesmo amor que tive pelos meus. Ela foi cativada por ele com o mesmo amor leve com que meus avôs me cativaram. Isso é tão simples, isso é tão grande, isso é tão humano. Como não se identificar? Como não querer ver o episódio todo? Chorei.

Ela disse mais ou menos assim:

"Ele foi a pessoa mais feliz que eu conheci, e olha que sorte ele ser meu avô"
"Com o vovô eu aprendi a tomar café bem forte de manhã... e tomar vinho com as refeições..."

A pessoa mais feliz que eu conheci foi meu avô Sebastião. O mais bem humorado e o abraço risonho de que mais sinto saudade. E café tem que ser forte, né? Nada de água de batata, já diria Lauro Pesente... E toda vez que eu dou o primeiro gole de um vinho tinto eu também lembro dele... Vovô Lauro, a presença de que mais sinto falta.

Chorei de novo.

No fim acho que é isso, a vida é muito mais simples do que eu fico imaginando. As pessoas são muito mais normais e se interessam sim pelo trivial. Assim como eu gostei de me ver representada na TV é bem capaz que alguém se sinta representado no que eu escrevo. E quem sabe a Ana Holanda estivesse mesmo certa quando certa vez disse 'continuem escrevendo', 'a sua história tem sim valor'.


segunda-feira, 24 de julho de 2017

"YOU WISH"

Hoje eu fui a academia e lá vi uma mulher que tem um corpo que eu acho lindo. Na verdade tem várias mulheres com corpos bonitos por lá, mas tem uma que eu acho mais gata - to falando de corpo bonito, malhado, bronzeado. Dessas mulheres normais, que trabalham e fazem academia e certamente fazem dieta.

Quando eu vejo essa mulher eu penso "nossa, queria ter o corpo igual ao dela". Só que hoje essa mulher estava usando uma camiseta com o seguinte dizer "YOU WISH".

A camiseta dela estava falando comigo. kkkkk. Sim eu queria ter aquele corpo, fácil que eu queria. Mas será que eu queria ter a rotina dela? Será que eu queria o suficiente?

É fácil olhar a grama do outro e perceber como é verde, verdinha! É fácil querer tudo, e querer que seja fácil e rápido. Só que no geral não é fácil porque as coisas precisam ser construídas e na maioria das vezes exige o mínimo de dedicação....

É o mesmo caso de gente que vê os quilos que minha irmã emagreceu e diz pra ela "nossa eu queria ter a sua disciplina e ir a academia todo dia" - [que tal acordar as 5h da manhã como ela e ir a academia? Que tal preparar as marmitas da semana? Que tal se planejar?]

Ou dos amigos passaram na USP e ouviram na época "nossa, que sorte que você passou numa faculdade que não é paga" [Muita sorte é claro. Não é que a pessoa estudou loucamente. Não é que teve disciplina e leu todos aqueles livros obrigatórios... Foi sorte apenas, é claro]

Etc, etc, etc.

São diversos os exemplos de coisas que as pessoas dizem que querem muito, fazem cara de dó, se colocam como vítima dessa vida cruel e sacana, quando na verdade elas não partem para a ação. E continuam fingindo que querem e a vida fingindo que acredita.

Claro que eu tenho um monte de quereres superficiais, claro que eu sei que me saboto um monte de vezes... E isso é fundamental pra eu não me colocar num papel de vítima. E apenas retornando ao corpo seco da mulher gata da academia: eu queria ter aquele % de gordura baixinho, mas não queria parar de comer e beber. Na verdade todos os dias da vida eu quero ser mais disciplinada, mas na hora do Gin Tônica do fim de semana, na hora do hamburger sangrando, na hora do brie com geléia, entre outros, eu como mesmo. Então eu concluo que se eu prefiro comer e beber é porque eu quero mais comer e beber do que ser sarada. Pronto. Mas ja houve o tempo em que eu ia ao endocrino e secretamente torcia para haver algum problema na minha tireóide. Tenho vergonha disso, mas é verdade. Então hoje, eu sei que sou responsável por (também) isso, e não fico colocando a culpa na genética, nos padrões da moda, na minha altura, bla bla bla...

sábado, 22 de julho de 2017

A tranquilidade de não refletir sobre certos temas

Amiga 1: Nossa Gabis, você tem muita cara de maconheira. Você jura que você não fuma?
Google Images: veja
Gabi: Não, não fumo. Não quero fazer parte do tráfico.
Amiga 1: kkkkkkkk
Gabi: To falando sério.
Amiga 1: Como assim?
Gabi: Não quero ser o "playboyzinho da zona sul" (me referindo à cena do filme Tropa de Elite).
Amiga 1: kkkkkk, é serio isso?
Gabi: Sim, é sério isso. Quando você consome algo você está financiando o produto em si, seja lá de que forma que esse produto chega até você.
Amiga 1: Ah, ta... Mas quando eu fumo eu não vou comprar na boca não...
Gabi: Hum, então você planta? [que por um acaso até onde eu sei também pode ser considerado tráfico no Brasil]
Amiga 2: Ah, kkkk, pra Gabis consumir tem que ser orgânico.
Gabi: Não gente, pra eu consumir tem que não ser tráfico, não importa quem compra, importa que tem gente que tá fazendo isso, importa que tem criança aviãozinho, importa que tem traficante no meio.

Silêncio.

E não foi sempre assim. Realmente eu assisti Tropa de Elite no cinema e me senti no lugar do Playboyzinho da Zona Sul. Nunca mais fumei.
Não que eu fosse compradora, ou super consumidora de maconha. Já fumei sim. Poucas vezes e sempre de amigos... Mas pra mim não tem diferença de fumar de amigo, de ir comprar na boca, ou sei lá o que. Tem diferença de plantar em casa, envolve menos gente, mas ainda assim tá errado [de acordo com a lei do Brasil]. Não quero ser uma peça desse jogo onde muita gente inocente morre.

Essa opção é minha. Cada um faz o que quer. E nem gosto tanto assim te maconha na verdade. Dá sono. Mas fiquei meio impressionada com o fato de que essa minha postura pareceu uma surpresa e provocou risos em pessoas que estão ao meu redor. Tráfico é um tema tão delicado, um tema que mata tanta gente, um tema que ninguém quer estar envolvido, só que está. Period.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Relacionamentos: uma ou outra reflexão

Não sei qual foi a primeira vez que escutei um homem dizer "nossa, se eu não fosse comprometido eu namorava com ela" ou, "ah se eu não fosse casado eu ia pegar tal mulher". Apesar de não lembrar quando foi a primeira vez que eu ouvi isso eu me lembro a primeira vez que isso me incomodou muito, faz mais de 10 anos. Eu tinha 20 e poucos anos, aquela idade em que a auto-estima não é das melhores, mas felizmente meu gênio sempre foi forte, sempre fui ardida, e questionava "opa, peraí, mas não é só você que tem que querer, bonitão".

Pode me chamar de louca, mas tá aí mais uma situação machista pra caramba que a gente escuta o tempo todo. E quando o tema é machismo, eu que sempre fui facilmente irritável e intensa nas discussões, vou em frente, em frente, em frente. Não evito confronto sobre esse tema que é extremamente importante, e extremamente atual, e todo mundo se diz a favor da igualdade de gêneros, mas nem todo mundo vive isso.

O lance é que por trás dessa frase está declarado - na minha opinião - que quem tem a decisão da escolha numa relação é o homem. E aqui obviamente estou generalizando, até porque não é todo homem que fala essa frase. Estou falando de uma turma, que me parece a maioria, mas é claro que não é todo mundo assim, nem todos pensam que quem escolhe a princesa é o homem.

A princesa indefesa que precisa tomar cuidado com o que fala, que não pode dar de primeira, ou que não tem amigos homens, que não pega no pé, e que preferencialmente não bebe muito. Entre outras situações que nem preciso elencar aqui. Imaginem só que calamidade se a mulher faz alguma dessas coisas e acaba não sendo escolhida, porque afinal, não é um material "namorável" ou "casável". Afe, que preguiça.

A verdade é que os homens só tem essa postura porque as mulheres deixam eles terem. Os meninos são ensinados desde crianças a serem machistas, e as meninas também. E ai cresce um monte de adulto com a cabeça fraca, com uma relação de superioridade que não é real. Cresce um monte de mulher que acha que precisa ser escolhida. Cresce um monte de cara achando que a coisa mais natural do mundo é escolher.

E como as mulheres deixam os caras continuam fazendo, e as mulheres não entendem o que está errado. Começa uma crise pra entender o que será que significa a mensagem de whatsapp. Ou a saga das cartomantes, ou a busca pelo signo ideal, ou variações do tom de voz...

Um desgaste.

Homens e mulheres esquecem que é preciso que os dois se escolham.

Então lembro da minha avó que sempre me disse pra eu me valorizar. E claro que o que ela quis me dizer todo mundo entendeu... Mas que tal pensar no sentido amplo do conselho? Valorizar, no dicionário: dar valor, importância a (algo, alguém ou a si próprio), ou reconhecer-lhe o valor que é dotado. Se dar valor, se reconhecer, se dar importância.

Acabo de ler um livro lindo da Milly Lacombe que fala muito de amor próprio. O Ano Em Que Morri em Nova York me fez refletir muito, sobre muitas coisas, sobre relacionamento, sobre a vida, sobre expectativas. Mas me fez refletir mais ainda, pela história da Milly, sobre o amor próprio. Sobre ser sua melhor escolha.

Esse livro é de uma mulher lésbica, sendo assim machismo não é um termo que se encaixe perfeitamente, mas foi o que me deu o click pra escrever esse texto que é um mix de rebeldia contra o machismo e uma reflexão sobre amor próprio. Muita gente pode não ver a conexão desses dois temas, mas quando falo de relacionamento entre homens e mulheres eu acho que tem muito a ver. E acho que esse click que aconteceu pra mim pode acontecer pra quem está lendo agora, pra repensar nessas situações que a gente permite, nessas mensagens camufladas, e principalmente pra reforçar sempre nosso valor. Reflexão não depende de gênero, amor próprio também não.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Sim ao 'não'

Lembro de uma vez ter comentado com alguma amiga que eu tive apenas uma boneca Barbie quando era pequena. Ela fez uma cara de espanto e perguntou: por que? E eu respondi simplesmente que eu tinha tido apenas uma Barbie porque não tínhamos grana pra eu ter mais de uma. Uma minha e uma da Rafa. Meus pais trouxeram de fora, da única viagem internacional que tinham feito até aquela data. Meu pai devia ter uns 30 anos, com duas filhas, devia ajudar os pais financeiramente. Minha mãe era professora. A gente estudava em escola particular, tinha clube, ia pra Santos sempre ver os avós e tinha apenas uma Barbie cada.

Do Google Images
Eu ouvi diversos "nãos" na minha infância. Pra coisas e pra atitudes. Eu fui a típica criança que "não é todo mundo". Eu não tinha todos os brinquedos, eu não tinha feito viagem internacional, eu não podia dormir na casa de amiguinhos, eu não podia ir mal na escola, eu não podia deixar de visitar os avós, eu não tinha roupa de marca (minha primeira foi da Pakalolo porque meus avós me deram de presente) e nem tênis de marca (o primeiro eu juntei todos os dinheiros que ganhei de presente na vida e comprei um New Balance na World Tenis). Eu não tive aquela boneca que dá pra maquiar, nem a Lu patinadora, e nem o pogobol. Eu não ganhei o Smurf que meu pai sempre me prometia - sacanagem pra caramba isso. Não tive festa no Mc, nem em nenhum buffet. Eu não tenho nenhum trauma por isso. Zero.

E eu cresci sabendo que eu não podia ter várias coisas e isso nunca foi um drama pra mim. Eu sabia que tinha um monte de coisas que outras pessoas não podiam ter. Eu já tinha ido na casa daquela faxineira que mencionei nesse post aqui. Eu via que nem todo mundo podia ter as mesmas coisas. Não lembro de meus pais sofrerem por isso, porque eles que me ensinaram que a vida era assim, e então tava tudo bem.

Com exceção do Smurf - que eu ainda acho muita sacanagem do meu pai - eu sabia sempre porque eu recebia os "nãos", porque era muito caro, porque eu tinha casa e não precisava dormir fora, porque família é a coisa mais importante, porque estar na média não vai te levar a lugar nenhum, porque um dia você vai sentir saudades dos seus avós, porque você não é todo mundo... Clássico!

Só que hoje numa conversa com uma mãe me veio de novo essa reflexão. Claro que não sem uns atritos, porque como dizem "eu sou muito firme nas minhas posições". Basicamente eu contestava o fato de um filho pedir uma coisa e a mãe se sentir na obrigação de atender o pedido. E claro que, como eu não tenho filhos ainda recebi aquela 'praguinha': "quando você for mãe você vai querer dar tudo pro seu filho, o que você tem e o que você não tem", me dizia a mãe.

Será?

Tomei um banho... Continuei pensando. Será que vou querer dar tudo? Será que vou queimar minha língua? E não resisti. Mandei uma mensagem pra minha mãe: "mãe, hoje a tarde tive uma conversa assim assado, falei isso e aquilo e a resposta foi que quando eu for mãe eu vou saber o que é querer dar tudo pra um filho. O que eu posso e o que eu não posso. Mãe, eu to doida por achar que as crianças não tem que dominar os pais?"

E a resposta de pertencimento que acalma meu coração e me mostra que eu realmente sai daquela barriga: "Não está louca não. Hoje em dia parece que tudo está diferente. A criação, sei lá".

Minha mãe também não se conforma com o tanto de "personalidade" que as crianças tem, e muitas vezes acha que hoje em dia "os pais são muito moles" rsrsrs. Bom, ela tem três filhos e ela pode falar. Eu só posso por aspas no que ela fala.

Concordamos que os nãos surgirão mais cedo ou mais tarde, e na nossa opinião é melhor começar a escutar os "nãos" em casa e começar a lidar com eles desde sempre. Certamente vida não será tão gentil quanto os pais podem ser ao dizer a palavrinha chata que escutaremos pra sempre nessa vida.

terça-feira, 23 de maio de 2017

A primeira vez que percebi ser privilegiada

Eu devia ter menos de 10 anos quando meu pai decidiu num final de dia qualquer que levaria a nossa faxineira até a casa dela depois do trabalho. Ele decidiu também que eu e a minha irmã mais nova iríamos junto. E fomos. E fomos convidados a entrar e tomar um café. E fomos. Naquele dia qualquer meu pai mostrou pra mim e pra minha irmã que a vida que a gente vivia não era a mesma vida que as filhas da nossa faxineira viviam.

Lembro de ser longe, e de ser no alto. Não me lembro muito de asfalto. Lembro até hoje de flashes da casa. Não tinha acabamento em tudo, na verdade me lembro de tijolos e cimento, e não de detalhes. Tinha um cheiro de umidade, que é diferente de sujeira, que fique claro. O mais próximo que consigo descrever é o cheiro de uma casa em construção. Além do cheiro de umidade.

Nesse dia eu tive, pela primeira vez, consciência de que era uma pessoa privilegiada. Meu pai sabia muito bem o que ele estava fazendo, e tenho certeza que foi uma das melhores coisas que ele fez pra minha formação como pessoa. Em casa ele perguntou o que a gente tinha achado da casa da nossa faxineira. Lembro de ter vergonha de dizer que não achei legal. Eu insistia em dizer que era uma boa casa. Isso não saiu mais da minha cabeça. Eu sabia que a minha casa era muito diferente da casa dela. Eu queria não ver, mas com 10 anos eu já sabia que a vida de verdade não tinha as grades altas como na minha casa.

A verdade é que eu não precisaria ter ido longe pra perceber como a minha vida era ótima. Bastaria olhar o álbum de fotos da infância do meu pai e tios, ou conversar com o meu avô Sebastião, que não sentia saudades de ser criança porque "passou muito frio e fome" naquela época. Frio e fome...

Frio que a gente passa quando viaja pra neve.

Fome que a gente sente quanto faz dieta pra perder uns quilinhos.

Minha consciência sobre esse tema parece só aumentar. Talvez eu esteja ficando mais velha e olhando mais ao redor. Talvez eu esteja ficando mais velha e procure mais sentido nas coisas. Talvez eu esteja apenas despertando mais e mais para esse mundo absurdamente desigual em que vivemos.

Fiquei três semanas cozinhando esse texto porque eu não sabia onde eu queria chegar com ele. Não conseguia falar direito sobre meritocracia, a tal falada palavra da moda. Não achava nada muito relevante na minha experiência para aprofundar o tema até que hoje leio o post abaixo da TPM e acho que se encaixa exatamente onde eu queria chegar: na consciência de que somos privilegiados para caramba. Sim, nós: eu e você que está lendo esse texto pela internet no conforto do seu lar, ou no ar condicionado no escritório pelo seu smartphone. Mais que privilegiados somos responsáveis por querer diminuir a desigualdade absurda que temos no Brasil. Somos responsáveis sim. E sei que quem está lendo isso não é burro e entendeu bem o que eu escrevi: somos responsáveis pelas nossas atitudes que contribuem ou não para a desigualdade no nosso país. Ponto.

SOBRE SER UMA NEGRA COM PRIVILÉGIOS
Por Stephanie Ribeiro

"Em 2015, o Tulio, meu parceiro, escreveu o artigo "Você é racista – só não sabe disso ainda" com um ponto que causou muito desconforto nas minhas redes sociais quando compartilhei. Ele dizia exatamente isso: "Ter privilégios significa usufruir de oportunidades e escolhas sem ter que pensar sobre isso, como ligar a torneira de casa para ter água. Decisões que parecem banais, mas não são, por causa da existência de um conjunto de indivíduos da mesma sociedade que não têm as mesmas oportunidades".
A palavra privilégio incomoda. É perceptível, quando alguém se vê diante dos seus privilégios, que a pessoa tende a ficar na defensiva. Contudo, a palavra não incomoda mais do que o fato de estarmos numa sociedade extremamente desigual em que ter privilégio é também visto como banal.